O melhor dos Playoffs

Quando chegamos ao fim dos Playoffs a memória fica um pouco enevoada, as quatro rondas parecem misturar-se numa sequência contínua de imagens. Foram dois meses de alegrias e tristezas, surpresas e confirmações, glória e desespero. Dois meses de noites sem dormir.

Para não nos esquecermos tão rapidamente dos Playoffs de 2013, ficam aqui os melhores momentos compilados e editados pelo Rafael Belchior. Não se esqueçam de subscrever o canal do Rafael no youtube.

Melhores Defesas

 

Melhores Golos

 

Golos no Prolongamento

Blackhawks Campeões!

Hockey

O fim foi terrivelmente irónico para os Boston Bruins. Depois de terem recuperado de uma desvantagem de 4-1 para eliminarem os Leafs na 1ª ronda, os Bruins perderam a Stanley Cup para os Blackhawks com dois golos sofridos nos últimos dois minutos.

O 1º período só deu Boston. A equipa de Claude Julien empurrou os Blackhawks para a sua zona e criou inúmeras oportunidades de golo, que Corey Crawford foi negando. Os Bruins pareciam mais determinados e, mesmo com um gelo de má qualidade, conseguiam passar o disco de forma fluída entre os defesas de Chicago. Tyler Seguin com um grande passe ofereceu o 1-0 a Chris Kelly e materializou o domínio dos Bruins.

À entrada no 2º período, o jogo pareciam não ter mudado muito. Os Bruins continuavam por cima e gozavam agora de dois powerplays consecutivos. Mas o penalty kill dos Blackhawks fez o que tem feito todo o ano. Parou o powerplay dos Bruins. Passados poucos segundos, Jonathan Toews, que esteve em dúvida para este jogo, marcava o golo do empate. Não foi o melhor momento de Tukka Rask nestes Playoffs.

A partir desse momento o jogo equilibrou. Erros de um lado e do outro criavam oportunidades de golos, mais do que propriamente a criatividade das duas equipas. Até que, a 7 minutos do fim, Lucic empurrou o disco para o fundo da baliza de Crawford. Naquele momento tudo parecia encaixar na perfeição. Lucic, a personificação da identidade dos Bruins, a forçar um Jogo 7 através da força de vontade.

Mas a dois minutos do fim, apareceu a personificação da identidade dos Blackhawks. Patrick Kane. Só ele conseguiria controlar o disco daquela maneira, naquelas condições e criar o golo do empate a pouco mais de um minuto do fim. Os Bruins não tiverem tempo para se adaptar à nova realidade do resultado e passados apenas 18 segundos, Bolland deu de caras com uma baliza aberta, depois de um desvio de Michael Frolik que enganou Tukka Rask.

Provavelmente, os Bruins mereciam o Jogo 7. Mas o desporto não vive de justiças nem de injustiças. Vive de momentos e de quem os define. Patrick Kane definiu esta final e por isso sai de Boston com o Conn Smythe e, acima de tudo, com a tão desejada Stanley Cup.

A época acabou e nós já temos saudades. Só vamos ter os jogos de volta em Outubro, mas o hockey não vai a lado nenhum. Durante o verão as esperanças são renovadas e todas as equipas têm hipótese de vencer a Stanley Cup. Ainda nada foi decidido e tudo pode acontecer até as equipas se voltarem a defrontar no gelo. Até lá vamos sonhando.

O que é que os Blackhawks fizeram bem no Jogo 4?

Se perguntasse aos fãs da NHL quem é o principal responsável pela solidez defensiva dos Bruins, acredito que as respostas se iam dividir entre Zdeno Chara e Tukka Rask.

Chara é o melhor defesa da liga. Ele obriga equipas tão talentosas como os Pittsburgh Penguins a mudar o seu jogo só para o anular, mas se formos ver os números percebemos que ele não é assim tão influente.

Com Chara no gelo, os Bruins sofrem 2.02 golos por 60 minutos. Sem Chara, sofrem 2.04. Estes números não têm em consideração a qualidade da competição (que no caso de Chara é enorme), mas mostra que a diferença entre os Bruins com Chara e sem Chara não é assim tão grande.

A verdadeira força dos Bruins está no seu sistema e na forma como toda a equipa o adopta durante o jogo. Claude Julien aplica um conceito de defesa em “camadas”. A ideia é ter sempre um defesa pronto para cobrir um erro de um colega. Numa defesa tradicional, cada defesa tem a responsabilidade de marcar um avançado. Se ele for batido o avançado fica com caminho livre para a baliza.

Normalmente, o papel dos alas é marcar os defesas adversários e prevenir os remates da linha azul. Os Bruins preferem dar esses remates de barato e colocar os alas mais perto dos defesas. Assim eles podem servir de cobertura a qualquer erro dos seus colegas.

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Quando o disco está nos cantos a ideia é a mesma: criar camadas. Um dos defesas pressiona activamente o portador do disco, enquanto que o outro se coloca um pouco recuado, pronto para reagir ao desenvolvimento da jogada.

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Nesta imagem vemos Seidenberg a marcar Michael Handzus em cima, enquanto que Brad Marchand se afasta do centro da jogada e se coloca na melhor posição para reagir. Se porventura Handzus batesse Seidenberg, ainda tinha que passar por Marchand para chegar à baliza, conferindo mais uma camada à defesa dos Bruins.

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Neste caso, Handzus passou o disco a Kane, Marchand avançou para pressiona o avançado dos Blackhawks e Seidenberg recuou para passar à cobertura, mantendo sempre a camada extra.  Apesar deste sistema ser altamente eficaz, os Blackhawks têm o que é preciso para o derrotar, e fizeram-no no Jogo 1, mas principalmente no Jogo 4.

Primeiro: entrar na zona ofensiva com velocidade, para não deixar que os Bruins montem a sua estrutura defensiva. A fraqueza mais evidente da defesa dos Bruins é a velocidade.

Segundo: manter os jogadores próximos. Isto contradiz os conceitos básicos do ataque. Numa situação normal uma equipa deve afastar os jogadores para aproveitar o espaço livre nas costas da defesa. Mas contra os Bruins a lógica tem que ser invertida.

Os Blackhawks têm atacado com velocidade em todos os jogos, mas só se limitaram a correr pelos corredores laterais e nunca conseguiram levar o jogo para o meio, onde se cria o verdadeiro perigo.

Para bater Tukka Rask, os Blackhawks têm que criar remates de posições com maior probabilidade de sucesso. Para isso precisam penetrar no meio da defesa dos Bruins. Já que fintar Zdeno Chara não é uma opção, restam passes curtos de apoio para tentar desestabilizar os defesas dos Bruins.

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No 3º golo dos Blackhawks no Jogo 4, Patrick Kane entrou em velocidade na zona ofensiva e Bryan Bickell ofereceu um apoio curto no meio. Este passe curto abriu um espaço enorme na defesa, que Bickell atacou. Segundos mais tarde, Kane aproveitou a desorientação da defesa dos Bruins para marcar golo num ressalto.

Se Bickell não desse o apoio curto, a única opção de Kane seria despejar o disco. O mesmo conceito funciona também nos cantos, como se viu no golo de Brandon Saad no Jogo 1.

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Toews bate o primeiro jogador dos Bruins. Quando o 2º avança para pressionar, Toews tem a opção de fazer um passe curto para Saad, batendo as camadas dos Bruins.

A grande diferença do Jogo 3 para o Jogo 4 foi a proximidade dos jogadores dos Blackhawks. Com maior apoio ao portador do disco, os Blackhawks conseguiram afastar o jogo das bordas e trazê-lo para o meio, onde podem fazer a vida negra a Tukka Rask.

Blackhawks lamentam oportunidades perdidas

 
Uma das mais importantes regras dos filmes de mafiosos diz que se temos um corpo para enterrar, o melhor é fazê-lo rápido antes que alguém apareça. Os Chicago Blackhawks foram muito melhores que os Boston Bruins no início do Jogo 2 da Final da Stanley Cup. Foram mais rápidos, mais fortes, dominantes. Podia ter sido uma goleada, podia ter sido fácil. Mas não foi.

Os Blachawks dominaram completamente o primeiro período. A rapidez de Kane, Sharp e Hossa pelos corredores laterais causou grandes dificuldades aos defesas dos Bruins. Torey Krug voltou a cometer um turnover na zona neutral que só não deu golo porque o arbitro apitou cedo demais. Mas não era só o rookie. Nenhum dos jogadores de Boston conseguia tirar o disco da sua zona sem o perder. Os Blackhawks aproveitaram bem para fazerem transições rápidas sempre que possível, tentando apanhar a defesa dos Bruins em contra-pé.

Claude Julien também não conseguiu responder rapidamente às mudanças que Joel Quenneville trouxe para o Jogo 2. Ao contrario do que aconteceu no Jogo 1, o treinador dos Blackhawks combinou a linha de Toews com a de Krejci, de longe a mais perigosa destes Playoffs. Bolland jogou muitos minutos contra Bergeron, enquanto que a linha de Kane e Sharp tentava aproveitar a terceira linha dos Bruins.

No primeiro período, a estratégia resultou na perfeição. Os Blackhawks tiveram 13 oportunidades de golo contra 2 dos Bruins, a linha Horton-Lucic-Krejci não fez nenhum remate à baliza e Patrick Sharp tinha mais remates do que toda a equipa dos Bruins, um deles acabou mesmo por entrar na baliza de Tukka Rask e fazer o 1-0.

Mas Julien mexeu na sua equipa ao intervalo, e mexeu bem. Tyler Seguin, que tinha estado a jogar com Rich Peverley e Kaspars Daugavins, passou para o lado de Chris Kelly e Daniel Paille. Esta nova terceira linha começou a criar oportunidades de golo sucessivas, principalmente contra a linha de Kane, até que Chris Kelly marcou o golo do empate, depois de uma excelente jogada de Paille por trás da baliza.

No terceiro período jogaram-se os piores 20 minutos desta final, com as duas equipas a tentarem minimizar os erros ao máximo, à espera de mais um prolongamento. Mas este não seria tão prolongado. Passados pouco menos de 14 minutos, a linha de Seguin voltou a fazer estragos, com o segundo seleccionado do Draft de 2010 a assistir para o golo de Daniel Paille.

Julien demorou um período, mas conseguiu virar o jogo a seu favor. Não esquecer Tukka Rask, que com 18 defesas no primeiro período manteve os Bruins no jogo durante a sua fase mais complicada, e deu tempo à equipa para se adaptar aos novos desafios colocados pelo adversário. Esta capacidade de adaptação ganha maior importância tendo em conta que as duas equipas não se defrontaram durante a época regular.

Os Blackhawks acabaram por perder sem terem jogado mal. Mas durante o prolongamento não pude deixar de pensar: onde anda Toews? Mais um jogo em que o capitão passou despercebido. Apesar de hoje ter defendido efectivamente a linha de Krejci, Horton e Lucic (que foram uma nulidade completa), Toews voltou a não ser uma ameaça no ataque. Bem sei que a um jogador como Toews se pede muito mais do que marcar golos, mas 1 golo em 19 jogos é muito pouco para um jogador do seu calibre.

Dois jogos, dois prolongamentos, duas moedas ao ar. Qualquer uma da equipas podia ter saído de Chicago com duas vitórias. Agora a caravana segue para Boston e ainda há muitos corpos para enterrar.

Triplo prolongamento para decidir Jogo 1

 
No fim, bastou um remate esperançoso da linha azul para o meio da multidão que bateu no stick certo, no ângulo certo para fazer interceptar o disco com o joelho de Andrew Shaw. Shaw estava só de passagem, da esquerda para a direita, e o desvio inadvertido foi suficiente para bater Tuukka Rask no 63º remate dos Blackhawks. Parecia bilhar às três tabelas.

Foi apenas o Jogo 1 da final da Stanley Cup, mas foram quase dois jogos em duração. Os Boston Bruins estiveram a liderar por 3-1 a 13 minutos e 51 segundos do fim. Normalmente, os mais precavidos espectadores já estariam a levantar-se para evitar o transito no regresso a casa. Mas ninguém arredou pé.

O jogo passou da alegria do empate para um impasse que se estendeu pela noite fora, até nascer o sol aqui em Portugal. Foram precisos três prolongamentos, vários lance de perigo, até que finalmente o remate de Michael Rozsival encontrou um caminho tortuoso para a baliza de Rask. Chicago venceu por 4-3 e lidera a série por 1-0. Foi o 5º jogo mais longo da história da NHL.

Keith e Seabrook juntos novamente

Joel Quenneville reuniu a dupla Duncan Keith e Brent Seabrook na vitória por 4-1 sobre os Detroit Red Wings, a contar para o 5º jogo da meia-final da Conferência Oeste, e ninguém está mais contente do que Seabrook.

“Sinto-me mais confortável”, disse Seabrook. “Jogámos juntos muitos anos, muitos jogos. Eu sei onde é que ele vai estar. Ele sabe onde é que eu vou estar. Estamos muito confortáveis a jogar um com o outro.”

Esta reunião pode ser exactamente aquilo que Seabrook precisa para dar a volta a um momento menos bom. Ele admitiu não estar contente com as suas exibições na eliminatória com os Minnesota Wild e pareceu algo perdido nos primeiros quatro jogos contra os Red Wings.

As suas fragilidades foram expostas por Gustav Nyquist neste golo, no Jogo 3.

Sem um dos melhores patinadores da liga a seu lado, a falta de velocidade de Seabrook torna-se mais evidente e este tem mais problemas em lidar com jogadores rápidos como Nyquist. É por isso que a dupla funcionava tão bem. Velocidade com força, mata.

Seabrook acabou o Jogo 3 com pouco mais de 17 minutos de gelo e passou grande parte do Jogo 4 no banco, jogando apenas 12 minutos, um mínimo da sua carreira.

Keith tem passado grande parte do tempo ao lado de Niklas Hjalmarsson mas, com as dificuldades de Seabrook, Quenneville sentiu-se obrigado a reunir o par que foi instrumental na conquista da Stanley Cup de 2010.

Por um jogo, parece ter resultado. Seabrook voltou ao seu tempo de jogo normal (23:20), fez uma assistência e disparou 7 remates à baliza. Eles estarão juntos novamente hoje, no Jogo 6, em que os Hawks tentam fugir da eliminação e forçar um Jogo 7.

Lundqvist frustrado depois de derrota no Jogo 1

Os New York Rangers chegaram à segunda ronda em grande parte devido à excelência de Henrik Lundqvist. Ele não joga sozinho, mas é de longe o melhor jogador dos Rangers e contribuiu muito para a vitória sobre os Capitals, não sofrendo qualquer golo no Jogo 6 e 7.

No jogo de abertura da segunda eliminatória frente aos Boston Bruins, Lundqvist fez 45 defesas e, mesmo assim, não conseguiu evitar a derrota por 3-2 no prolongamento. No fim da partida, o guarda-redes Sueco não escondeu os seus sentimentos.

“Joguei mal no prolongamento? Não. Posso marcar golos? Não. É frustrante? Sim. É terrível perder no prolongamento, mas apenas tenho continuar em frente, jogar o meu jogo e esperar que as coisas mudem”, disse Lundqvist.

Lundqvist não rejeitou as suas responsabilidade e assumiu a culpa no golo de Brad Marchand que decidiu o jogo. “Acho que tomei um má decisão nesse lance”, disse Lundqvist. “Estava demasiado concentrado no disco. Eu sabia que ele ia tentar por o disco entre as minhas pernas, mas estava a prestar mais atenção ao disco.”

Não me parece que Lundqvist seja mal batido no golo. Aliás, ele foi bom demais. Lundqvist consegue ir de um lado ao outro da baliza em muito pouco tempo, não por ser muito atlético, mas devido à sua grande capacidade de ler a jogada. Ele foi tão rápido a reagir, que conseguiu chegar ao lado direito da baliza ainda antes de Marchand rematar. Só que isso deixou espaço entre as suas pernas, que Marchand soube aproveitar.

Mas Lundqvist fez o seu papel. Criticou a equipa, pediu mais apoio, e depois admitiu os seus próprios erros, dando um sinal positivo ao balneário. Vamos ver se os colegas aceitam a crítica da melhor maneira e começam a fazer mais para ajudar o seu guarda-redes.

É certo que as declarações de Lundqvist foram feitas no calor do momento, mas existem nelas um fundo de verdade. Os Rangers geram apenas  27.2 remates por jogo em 5-contra-5, o segundo pior registo de todas as equipas ainda em competição, e permitem 33.2 remates contra a sua baliza.

powerplay dos Rangers tem sido ridículo nestes Playoffs, com uma percentagem de sucesso de 6.4%. Para pôr em perspectiva  a segunda pior equipa no powerplay são os Bruins com 16.7% de sucesso. Ah. E a melhor equipa com a vantagem numérica são os Penguins com 36%. 30% mais que os Rangers!

O tamanho da amostra é pequena, e por isso não podemos tirar grandes conclusões destes números. Mas são sempre os pequenos períodos de ascensão ou de declínio que fazem a diferença nos Playoffs.

Lundqvist está a fazer a sua parte. Ele tem 95.3% de defesas em 5-contra-5. Só Craig Anderson fez melhor até agora (95.4%). O ataque e o powerplay dos Rangers têm que encontrar o seu ritmo e aproveitar as fragilidades da defesa dos Bruins.

As lesões de Ference, Seidenberg e Redden obrigaram Chara a jogar 38 minutos (!?) no Jogo 1. Metade dos defesas dos Bruins são rookies (Hamilton, Bartkowski e Krug). Uma equipa como os Rangers devia tirar partido deste momento para ganhar uma vantagem decisiva na eliminatória. Se não forem capazes de o fazer, resta a Lundqvist ser perfeito.