Antevisão: Capitals – Panthers

Backstrom, guardado de perto pelo rookie Gudbranson, no jogo de sábado

Depois de 3 derrotas consecutivas, duas das quais em casa, os Capitals conseguiram finalmente uma vitória incontestável, com uma exibição a condizer.

Talvez tenha sido o desespero. Talvez tenha sido a fragilidade do adversário. Talvez tenha sido sorte. Qualquer que seja a razão, os Caps foram capazes de dominar todas as zonas do gelo na vitória frente aos Florida Panthers por 5-0, no sábado. Pela primeira vez, os Capitals marcaram mais do que 3 golos, o guarda-redes não cometeu erros e a equipa manteve o nível durante os 60 minutos de jogo.

Hoje, as duas equipas voltam a encontrar-se, desta vez na Florida, e os Panthers tiveram 3 dias para lamber as feridas do jogo de sábado. Todos os jogadores querem mostrar que a derrota expressiva foi uma casualidade. Mas nenhum mais do que Tomas Fleischmann. Ele é a metáfora perfeita para a actual situação dos Capitals.

Em 2009/10, os Capitals dominavam a liga. Com 121 pontos, a equipa de Washington, então comandada por Bruce Boudreau (que está a fazer um belo trabalho em Anaheim, just saying…), venceu o President’s Trophy. Um ataque explosivo composto por Ovechkin (50-59-109), Backstrom (33-68-101) e Semin (40-44-84), muito bem apoiada por um elenco secundário de luxo, com 7 jogadores a marcarem mais do que 20 golos. Fleischmann era um deles.

Mas os Caps acabaram por ser eliminados pelos Montreal Canadiens na 1º ronda dos Playoffs, às mãos de Jaroslav Halak, que passava pela melhor forma da sua vida. A partir daí tudo foi diferente. A equipa foi tentando forçar um tipo de jogo que não era o seu, nem nunca seria, e foi perdendo a sua identidade a cada jogo que passava. Ovechkin passou de 50 para 38 golos, Semin foi trocado, tal como Fleischmann, e os Capitals entraram numa espiral emocional.

Há quatro anos que a equipa muda de sistema todos os anos. Primeiro com Boudreau. Depois, ainda com Boudreau mas mais defensivo. Depois, o estilo “vamos deixar o nosso melhor jogador a secar no banco” de Dale Hunter, naquela que foi uma das mais estranhas experiências que eu alguma vez vi. E agora, numa época encurtada onde quase não houve pré temporada, vamos começar tudo do zero com Adam Oates, que alguns dizem ser demasiado sofisticado para os jogadores dos Washington Capitals.

Adam Oates foi um jogador extraordinário, com uma inteligência para o jogo fora do normal. Mas Alex Ovechkin, Nicklas Backstrom, Mike Ribeiro são jogadores acima da média e que devem estar preparados para interpretar qualquer sistema. Talvez por ser mais complicado demore mais tempo, mas tempo é coisa que este ano não há.

Por vezes basta um momento para uma equipa se unir e acreditar no seu valor. Uma segunda vitória consecutiva sobre os Florida Panthers pode ser esse momento. Uma derrota poder ser mais um passo para o fim de uma era.

Transmissão: SportTv 3 às 00:30

Números:

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Fenwick Close: “forma de estimar a posse do disco, tal como o Corsi, através do diferencial de remates direccionados à baliza, sem contar com os remates bloqueados, quando o marcador está no máximo a dois golos de diferença, apresentado sob a forma de percentagem”

5v5 GM/60: “golos marcados em 5 contra 5, por 60 minutos de jogo”

5v5 GS/60: “golos sofridos em 5 contra 5, por 60 minutos de jogo”

PDO: “soma da percentagem de remate com percentagem de defesa, que tende a regredir para a média e está relacionado com o factor sorte”

Equipas Especiais:

special teams wsh-fla 12-02-13.png

5v4 GM/60: “golos marcados em 5 contra 4, por 60 minutos de jogo”

5v4 RF/60: “remates a favor em 5 contra 4, por 60 minutos de jogo”

4v5 GS/60: “golos sofridos em 4 contra 5, por 60 minutos de jogo”

4v5 RC/60: “remates contra em 4 contra 5, por 60 minutos de jogo”

Alinhamento:

Os números mostram duas equipas com os mesmos problemas: ataque, baliza e penalty kill. Com powerplay acima da média, a equipa que conseguir manter a disciplina e limitar as situações de desvantagem numérica pode ter uma vantagem determinante. Não é um bom jogo para deixar os goons à solta…

No entanto, como o PDO mostra, estas duas equipas não têm sido bafejadas pela sorte, principalmente os Panthers. Com 948, a equipa da Florida é penúltima na NHL nesta estatística, apenas atrás dos Los Angeles Kings com 947. Mas um dos truques do PDO é que nem sempre regride para 1000. Uma equipa fraca pode ter uma média inferior a 1000, principalmente se estiver mal servida de guarda-redes. Com uma dupla formada por Jose Theodore e Scott Clemmensen, não é de esperar que os Panthers cheguem a 1000, mas 948 é baixo de mais para ser sustentável.

Se estas duas equipas pretendem chegar aos playoffs têm que melhorar a posse do disco. O Fenwick mostra que ambas são normalmente dominadas pelos adversários, e sem um guarda-redes de topo isso pode ser fatal. No ano passado, apenas 3 equipas chegaram aos Playoffs com um Fenwick Close inferior a 50%: os New York Rangers, os Phoenix Coyotes e os Nashville Predators. Sabemos bem que são os donos da baliza nestas equipas.

O alinhamento dos Panthers deve ser qualquer coisa parecida com isto:

Tomas Fleischmann – Stephen Weiss – Kris Versteeg
Drew Shore – Jonathan Huberdeau – Peter Mueller
Tomas Kopecky – Marcel Goc – Alex Kovalev
Jareed Smithson – Shawn Matthias – Jack Skille

Erik Gudbranson – Brian Campbell
Dimitry Kulikov – Mike Weaver
Filip Kuba – Tyson Strachan

Scott Clemmensen

E agora o dos Caps:

Jason Chimera – Mike Ribeiro – Alex Ovechkin
Wojtek Wolski – Nicklas Backstrom – Troy Brouwer
Eric Fehr – Mathieu Perreault – Joel Ward
Joey Crabb – Matt Hendricks – Jay Beagle

Karl Alzner – Mike Green
John Erskine – John Carlson
Tomas Kundratek – Jeff Schultz

Braden Holtby

Pelo gráfico do uso, que cruza qualidade de competição, offensive zone start e corsi, Kevin Dineen não gosta de combinar linhas, pelo que a qualidade de competição está bem distribuída pela equipa, mas usa claramente a 3ª e 4ª linhas mais na sua zona defensiva. Tudo indica que Dineen faz uma rotação de linhas situacional, ou seja, que depende mais da situação (zona do faceoff, resultado, tempo de jogo) do que do adversário, o que é pena. As bolas azuis de Goc e Matthias, que ilustram um corsi positivo, mostram que estas duas linhas têm capacidade para defrontar as melhores linhas dos adversários. Se Dineen começasse a combinar linhas o rookie Jonathan Huberdeau poderia ser o maior beneficiado, pois com minutos mais fáceis ia ter espaço para fazer ainda melhor do que já fez (3-3-6), à imagem do que tem feito Randy Carlyle com Nazem Kadri em Toronto.

Quanto aos Capitals, a linha de Backstrom é a única que se tem mantido constante e a produzir, sendo responsável por 30% dos golos da equipa. Adam Oates parece definir duplas e decidir o terceiro elemento da linha consoante o adversário. Backstrom-Brouwer e Ribeiro-Ovechkin (finalmente!) são as principais duplas com Chimera e Wolski a rodar entra as duas linhas, e é daqui que se espera que venham os golos. Contudo foi a linha de Ward-Perreault-Fehr que dominou o jogo de sábado, com dois golos. Com Backstrom e Ribeiro a comerem os minutos mais difíceis, esta linha pode ser mais uma vez um factor decisivo.

Como joga em casa, Kevin Dineen tem o controlo sobre as combinações das linhas. Se conseguir eliminar Backstrom, provalmente recorrendo a Marcel Goc e ao seu par defensivo Kuba-Strachan, combinar Mike Weaver com Ovechkin, que se dá bem com o Nº8, enquanto protege a linha de Jonathan Huberdeau, os Panthers podem ter uma oportunidade para ganhar.

Dion Phaneuf e a estupidez de usar o +/- para avaliar um jogador

O início de época dos Toronto Maple Leafs tem sido desapontante. Não tanto pelos resultados, mas principalmente pelas exibições. Mesmo nas vitórias a equipa parece ser sempre dominada pelo adversário, e curiosamente até tem sido James Reimer a evitar desastres maiores.

Depois de uma vitória encorajadora em Pittsburgh, as derrotas consecutivas contra Islanders e Rangers trouxeram os Leafs de volta à realidade. A facilidade com que os Rangers recuperaram de uma desvantagem de dois golos, tal como os Islanders tinham feito dois dias antes, mostra que os Leafs ainda têm um longo caminho a percorrer.

A satisfatória performance de Reimer em Nova Iorque desviou as atenções para outros sectores da equipa, particularmente para a defesa. O novo alvo dos críticos é o capitão Dion Phaneuf, que segundo estas almas iluminadas deve ser dispensado no próximo defeso porque tem o pior +/- da NHL, com -8.

O +/- é muito provavelmente a pior estatística para avaliar um jogador. Eu acredito que os números são uma excelente fonte de conhecimento, mas têm que ser utilizados com honestidade intelectual, pesando todos os factores que podem influenciar uma determinada estatística.

Por isso, é essencial perceber que o +/- tem muito pouca relação com a qualidade individual de um jogador. É uma estatística muito influenciada pela qualidade global da equipa. Só assim se percebe que o top 5 da época passada tenha sido Patrice Bergeron, Tyler Seguin, Zdeno Chara, Chris Kelly e Brad Marchand. O que é que estes 5 jogadores têm em comum? Jogam todos nos Boston Bruins.

Quando se sofre ou quando se marca um golo há muitos factores que ultrapassam a individualidade, principalmente no caso particular de um defesa. De que vale limitar os remates do adversário se o guarda-redes deixar entrar os poucos que passam? De que vale criar jogadas de perigo se os avançados não as transformarem em golos?

Dion Phaneuf tem sido afectado por ambos os males. Quando Phaneuf está no gelo a percentagem de remate da equipa é de 4.65% (média da liga – 7.84%) e a percentagem de defesas 82.7% (92.16%).

O +/- também é influenciada pela qualidade da competição. Quando se joga 32 minutos e 38 segundos num jogo, 15 dos quais contra a linha de Gaborik, Richards e Nash, é difícil ter um +/- positivo. O seu Corsi Rel QoC é de 3.957, o quarto maior entre defesas em toda a liga.

Para além de jogar mais tempo do que devia e contra as melhores linhas do adversário, Phaneuf tem a seu lado um rookie de 27 anos que nunca tinha jogado na NHL.

Phaneuf e Carl Gunnarsson são os únicos defesas dos Leafs capazes de aguentar os minutos difíceis. No ano passado eles formaram o primeiro par defensivo que foi o grande pilar da equipa.

No entanto, para enfrentar as equipas de topo da NHL, com capacidade de rodar 3 ou até mesmo 4 linhas é preciso mais um par defensivo que seja isso mesmo, defensivo. É preciso alguém para jogar ao lado de Phaneuf (e que o ajude, efectivamente) ou para jogar no segundo par, permitindo restituir a dupla Phaneuf-Gunnarsson.

Os Maple Leafs precisam de mais um defesa como Dion Phaneuf, não menos.

Qual o valor de P.K. Subban?

Pode ser uma pergunta parva, mas será que os Montreal Candiens e o seu GM Marc Bergevin sabem quanto vale P.K. Subban e o quão importante ele é para equipa?

Provavelmente sabem. Se sabem este impasse é ainda mais bizarro. Se não sabem, os fãs dos Canadiens deviam ficar preocupados.

Depois de Jamie Benn ter chegado a acordo com os Dallas Stars, P. K. Subban é um dos últimos restricted free agents ainda por assinar (juntamente com Ryan O’Reilly). Os dois lados permanecem distantes, muito distantes segundo algumas fontes.

As últimas informações apontam para a persistência dos Canadiens num contrato de 2 anos por $5 milhões de dólares. Esta oferta fica bastante abaixo da produção de Subban no gelo. Chega a ser mesmo absurda.

Há poucos dias, Subban afirmou à imprensa que simplesmente quer receber aquilo que merece, mas é óbvio que os dois lados têm opiniões muito diferentes quanto ao valor do defesa de 23 anos.

Parece que os Canadiens consideram que Subban vale o mesmo que Michael Del Zotto. Tal como Subban, Del Zotto era um restricted free agent, que assinou um contrato de 2 anos por $5 milhões com os New York Rangers.

O único problemas com esta comparação é que, apesar de a produção em termos de pontos ser semelhante, Subban é usado em situações de jogo mais difíceis. Especialmente em 5v5.

Antes de vos mostrar os números tenho que explicar o conceito de Corsi. Corsi é o diferencial das tentativas de remate (golos+remates defendidos+remates falhados+remates bloqueados). Esta estatística é a mais representativa da qualidade de um jogador, porque a amostra é maior do que se usássemos, por exemplo, golos ou remates. Maior amostra, menor variabilidade estatística.

Resumindo, se o jogador X tem um Corsi de +1 significa que quando o jogador X está no gelo a sua equipa fez mais uma tentativa de remate do que o adversário.

Vamos então comparar os números.

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O Rel Corsi (Relative Corsi) não é mais do que a relação do Corsi de um jogador com a média da sua equipa. Esta maneira de apresentar o Corsi é a melhor para comparar jogadores de equipas diferentes, uma vez que elimina vantagem que podiam ter os jogadores que jogam em equipas melhores. Podemos então concluir que quando Subban está no gelo os Canadiens superam largamente a sua média, enquanto que Del Zotto fica um pouco abaixo do resto da sua equipa.

No entanto, o Corsi é muito influenciado pelo o uso do jogador. Por exemplo, um defesa que enfrente os melhores jogadores da NHL tem mais dificuldades em alcançar um Corsi positivo. Para avaliar esse factor temos o Qoc, que é a sigla para Quality of Competition (qualidade da competição) e que se calcula pela média do Corsi dos jogadores que defronta.

Outro factor que puxa o Corsi para cima é a percentagem de turnos que um jogador começa na zona ofensiva, representado pelo OZ%.

O que estas duas estatísticas nos dizem é que Subban joga contra adversários de maior qualidade e começa mais turnos na sua zona defensiva, o que valoriza ainda mais o seu Corsi.

Existe outra maneira para avaliar a qualidade da competição, de uma forma mais clara, dando caras e nomes a estes números. Para isso vou enumerar os 10 avançados que jogaram mais tempo contra Subban e Del Zotto.

Subban: Jason Pominville, Jason Spezza, Milan Michalek, Phil Kessel, Derek Roy, John Tavares, Tyler Bozak, Steven Stamkos, Matt Moulson, Ilya Kovalchuk.

Del Zotto: Petr Sykora, Matt Read, Danias Zubrus, David Clarkson, Frans Nielsen, Wayne Simmonds, Michael Grabner, Patrik Elias, Shawn Matthias, Pascal Dupuis.

Apesar desta análise ser fortemente influenciada pela força das respectivas divisões, nota-se claramente que Subban enfrenta frequentemente as primeiras linhas do adversário, enquanto que Del Zotto fica-se pelas segundas, ou até terceiras linhas em alguns casos.

Não estou a criticar o Del Zotto. É um jogador útil dentro do papel que tem na sua equipa. Apenas o usei como comparação porque o seu contrato é igual à oferta que os Canadiens supostamente fizeram a Subban.

Para terem uma ideia de como os números de Subban se comparam com o resto da NHL, apenas 12 defesas tiveram maior QoC do que ele. Desses 12, apenas dois conseguiram um Corsi superior. Shea Weber e Nicklas Lidstrom.

Papel madrasto!

Toda a gente sabe que no hóquei o que interessa são os golos porque são eles que dão vitorias, e é a ganhar que se chega à tão cobiçada Stanley Cup. No entanto uma equipa é muito mais que fazer golos. Muitas vezes é mais importante impedi-los. Cada jogador tem um papel. Em princípio se esse papel for cumprido, a equipa funciona e ganham-se jogos. Claro que nada é assim tão linear. Existe sempre o factor sorte e obviamente os jogadores não valem todos o mesmo. Mesmo assim acredito que uma equipa mais fraca, se tiver jogadores que entendem o seu papel e que o desempenham com competência, pode ser superior a uma equipa de “estrelas”.

No sentido de avaliar as equipas e de as melhorar, o hóquei e os seus adeptos têm uma obsessão que não se vê em muitos desportos, as estatísticas. E não estamos a falar de golos marcados e golos sofridos. Estamos a falar de estatísticas avançadas que envolvem fórmulas complicadas e que analisam ao pormenor todos os aspectos do jogo, dos jogadores e das equipas, de tal forma que, em excesso, podem até ridicularizar a análise do jogo. Os números dos jogadores tirados do contexto, sem ter em conta uma série de factores, podem ser falaciosos, iludindo em erro sobre o seu verdadeiro valor. No entanto se uma estatística for bem utilizada pode ser muito útil para avaliar, de facto, a qualidade de um jogador e, em última análise, a sua equipa.

Mas afinal, o que têm a ver as estatísticas com os papéis dos jogadores? É isso mesmo que eu quero explicar. Depois de analisar vários artigos cheguei à conclusão que existe um conjunto de jogadores que têm um papel muito especial nalgumas equipas. São defensive foward, especialistas defensivos, ou seja avançados que têm um papel mais defensivo. Este tipo de jogador não marca necessariamente muitos golos, mas também não lhe cabe a si fazê-lo. O seu papel é mais prevenir os golos. Estes jogadores, normalmente na 3ª linha, absorvem os minutos mais difíceis, ou seja, jogam contra a competição mais forte e fazem um grande número de turnos defensivos. Desta forma, dão margem às estrelas da equipa para terem mais liberdade e marcarem golos. Claro que há algumas equipas em que são as estrelas que absorvem os minutos mais difíceis, mas não são esses casos que interessam nesta análise.

Então até agora temos um conjunto de jogadores com um papel muito definido nas equipas, que consiste em fazer muitos minutos difíceis e com a maioria dos turnos defensivos. Penso também que é unânime a importância destes jogadores, sobretudo nas equipas mais fracas, mas a verdade, e é aqui que se torna curioso, é que as estatísticas nem sempre são justas com estes jogadores. Há uma em particular que eu quero explorar. O Corsi. Este é um diferencial de remates, ou seja é o conjunto dos remates feitos por uma equipa (remates à baliza, remates falhados e remates bloqueados) menos os remates sofridos por essa equipa. Quando aplicamos a um único jogador, o corsi refere-se apenas aos remates feitos e sofridos pela equipa enquanto esse jogador esteve em campo. Esta estatística dá-nos a ideia da posse do disco. Logicamente, uma equipa que tem um Corsi maior, tem mais remates, logo terá maior posse de disco. Quando avaliamos um jogador apenas pelo seu Corsi, sem ter em conta mais nenhum aspecto pudemos chegar a conclusões erradas. Um mau Corsi não quer dizer que estamos perante um mau jogador, assim como um bom corsi não é, só por si, motivo para sobrevalorizar um jogador. O contexto deve ser considerado. Existem de facto muitos jogadores que têm um mau corsi, mas que são muito importantes para a equipa. E não é difícil de entender. Um jogador que esteja em campo a defrontar os jogadores mais fortes da outra equipa e que ainda por cima faça muitos turnos defensivos, terá mais dificuldade para manter a posse do disco e para impedir os remates. Este tipo de jogadores encaixa no tal papel que traçei anteriormente. Estes jogadores acabam por ter piores corsis, não por serem maus jogadores mas porque jogam em situações mais difíceis.

Perante isto temos de ter em conta dois factores fundamentais quando avaliamos um jogador pelo seu Corsi: quality of competition e offensive zone starts. A qualidade da competição expressa o valores dos jogadores da equipa adversária que estão no gelo ao mesmo tempo que o jogador a ser avaliado. É um factor muito importante porque se um jogador joga constantemente contra os melhores tem mais dificuldades. Quanto às zones starts, um jogador que tenha muitos turnos defensivos nunca pode ter um corsi tão alto como um jogador que tem a maioria dos turnos ofensivos. Ora o que acontece com os defensive foward é precisamente isto. Normalmente jogam contra adversários fortes e têm a maioria dos turnos defensivos. Isto faz com que seja muito difícil terem um Corsi positivo, mas isso não faz deles maus jogadores, pelo contrário. Depois há os casos, em que estes especialista da defesa conseguem atingir Corsi positivo, ou pela sua qualidade e grande competência ou porque há outros jogadores da sua equipa que partilham os minutos difíceis.

Vejamos 5 casos que escolhi para ilustrar bem este papel de defensive foward, e que também dão uma ideia de como o corsi pode ser enganoso só por si.

Manny Malhorta, Vancouver Canucks

Como é visível no gráfico, Malhorta tem um papel altamente especializado e puramente defensivo. No eixo dos xx temos a percentagem de turnos ofensivos que um jogador faz. Quanto menor a percentagem, mais defensivo é o seu papel. Ora Malhorta tem uma percentagem à volta dos 12%, o que quer dizer que ele faz quase todos os turnos na zona defensiva, deixando os turnos ofensivos para a dupla letal dos irmãos Sedins. Desta forma optimizam-se as qualidades dos jogadores. O Malhorta não faz turnos ofensivos porque os Canucks não precisam de mais um jogador a marcar golos, mas sim de um avançado especialista na defesa. No eixo dos yy, tem a qualidade da competição. Quanto maior o número, mais fortes são os adversários que o jogador defrontam quando estão no gelo. Realmente Malhorta não tem um valor muito elevado, mas isso é porque há outros jogadores que também absorvem os minutos difíceis, o que faz com que ele não jogue contra os adversários mais fortes. Finalmente analisemos o Corsi. Bolas azuis, corsi positivo; bolas brancas, corsi negativo. Quanto maior a bola, maior o valor do corsi. Neste caso, o corsi do Malhorta é mau. A bola é grande mas é branca. Mas, com os turnos defensivos que ele faz como não haveria de ser!? É quase impossível um jogador deste tipo estar no gelo e a equipa ter grande posse do disco ou muitos remates. Mas também não é esse o seu papel. Tudo isto para explicar que Manny Malhorta não é um mau jogador só porque tem um mau corsi. Temos que ver o contexto e o seu papel em campo. Temos de ajustar o Corsi às zones starts e ao quality of competition. Se o fizermos, conseguimos ver a importância deste tipo de jogador e como a organização da equipa é muito mais eficaz se cada um cumprir a sua função. E isso, Malhorta faz na perfeição.

Dave Bolland, Chicago Blackhawks

Bolland sofre exactamente do mesmo “mal” que Manny Malhorta. Tem a maioria dos turnos defensivos e neste caso, Bolland joga contra os adversários mais fortes, absorvendo por completo os minutos mais difíceis, deixando livres os melhores jogadores, como Jonathan  Towes.

Brian Boyle, New York Rangers

O caso de Boyle é ligeiramente diferente. Claramente é um especialista defensivo. Tem muito mais turnos defensivos , mas não joga contra os mais fortes. Isto acontece porque os minutos difíceis são distribuídos equitativamente pelas três primeira linhas, aliviando alguma da responsabilidade de Boyle. Este facto pode explicar o seu corsi positivo. Mesmo assim, Boyle deparou-se com muitos turnos defensivos e isso contribuiu para o baixo número de golos sofridos pelos Rangers.

Jordam Staal, Pittsburgh Penguins

 Nos Penguins, o papel de defensive foward está entregue a Jordan Staal. É impressionante como ele consegue ter um grande número de turnos defensivos (não tanto como Malhorta, mas são equipas diferentes), contra os adversários mais fortes, porque tem um quality of competition assutador, e mesmo assim tem um corsi positivo. É, de facto, um grande jogador. Com este papel de Staal, Malkin e Crosby têm liberdade para dominar os turnos ofensivos e concretizar os golos.

Jarret Stoll, LA Kings

Este gráfico é diferente e foi por isso que o escolhi. Nos Kings, o especialista defensivo é Jarret Stoll, mesmo com um quality of competition muito baixo e zones starts mais ofensivos do que os casos anteriores. O que acontece é que os Kings têm uma organização diferente. Neste caso quem tem a responsabilidade de absorver os minutos mais difíceis são os melhores jogadores, como Gagne, Kopitar ou Carter e por isso o papel de Stoll é algo diferente de Malhorta, Bolland, Boyle ou Staal.

Depois desta análise exaustiva, resta-me levantar uma questão. O que define melhor um defensive foward, quality of competition ou zones starts?! A verdade é que se temos um jogador que defronta os adversários mais fortes mas tem poucos turnos defensivos eu só posso afirmar que o treinador acha que ele é um especialista defensivo e isso pode ser porque não tem ninguém melhor para o papel. Mas se um jogador tem a maioria dos turnos defensivos, mesmo que não jogue contra os mais fortes estamos, de certeza,  perante um avançado especializado na defesa.

Espero que este artigo abra os olhos sobre o papel das estatísticas. Ter uma estatística má, só por si, não quer dizer nada. Há que analisar o jogador num todo, tendo em conta o seu papel, os jogadores com quem joga e contra quem joga. Se assim fôr o Corsi e qualquer outra estatística pode ser fundamental para compreender a magia por detrás de um disco, um jogador, uma taça!

Os Invencíveis

Quando é que isto aconteceu? Quando é que os Los Angeles Kings se tornaram invencíveis?

Seria fácil dizer que isso se deve à aquisição de Jeff Carter ou à época monstruosa de Jonathan Quick, mas a verdade é que os Kings não personificam a habitual equipa surpresa, que aparece anualmente nos Playoffs da Stanley Cup para assustar algumas mentes desassossegadas.

Já vimos nos últimos anos algumas equipas que terminaram a época regular em 8º lugar e espantaram toda a gente nos Playoffs, mas nenhuma despachou os seus adversários com esta facilidade.

Os LA Kings eliminaram os Vancouver Canucks e os St. Louis Blues em 9 jogos. Muito provavelmente farão o mesmo aos Phoenix Coyotes na Final de Conferência.

Anze Kopitar, Dustin Brown e Justin Williams formam uma 1ª linha explosiva, que leva já 28 pontos combinados.

Mas os Kings também estão a gozar da contribuição de jogadores de 2ª linha como Dustin Penner e Jarret Stoll. Mike Richards e Jeff Carter têm o Corsi Rel QoC mais alto entre todos os avançados, o que mostra que os ex-Flyers estão a anular os melhores jogadores adversários.

Na defesa, apesar de Drew Doughty e Rob Scuderi estarem a jogar mais tempo, o duo Voynov-Mitchell tem tido o trabalho mais difícil (5.124 e 4.930 Corsi QoC respectivamente) e estão a ser bastante eficientes defensivamente.

Para terminar, os Kings têm a melhor 4ª linha de todas as equipas ainda em competição. Brad Richardson, Colin Fraser e Jordan Nolan são a força escondida dos Kings, começam os seus turnos na zona adversária e fazem os possíveis para manter o disco lá. E claro, ainda têm Jonathan Quick…

Houve dois momentos cruciais na época dos Los Angeles Kings: a chegada de Darryl Sutter e a aquisição de Jeff Carter. Com estas mudanças, a equipa foi melhorando gradualmente e chegou à altura das grandes decisões no topo da sua forma.

Analisando o Fenwick Tied, ou seja a percentagem de remates não bloqueados quando o jogo está empatado, os Kings melhoraram de 50.2% para 61.2% depois das chegadas de Sutter e Carter.

Quick é muito bom, mas os Kings são agora uma equipa completa e com um treinador que sabe como utilizar os seus jogadores da maneira mais rentável. Nos Playoffs da NHL tudo pode acontecer, mas os Kings são neste momento a equipa mais forte em todas as áreas do jogo.

O Estranho Caso De Alexander Ovechkin

Fontes próximas (e obviamente fictícias) aos Washington Capitals afirmam que Dale Hunter procurou inspiração no filme de David Fincher para distribuir os minutos de jogo da sua equipa durante os Playoffs.

No romance de F. Scott Fitzgerald um homem nasce com oitenta anos e rejuvenesce a cada dia que passa. No romance de Dale Hunter a estrela dos Washington Capitals vê o seu tempo de jogo diminuído a cada dia que passa.

Ovechkin jogou menos de 20 minutos em 6 dos 11 jogos que já disputou nos Playoffs da Stanley Cup 2012, incluindo um mínimo de carreira no Jogo 2 frente aos Rangers com 13 minutos e 36 segundos. Para um dos melhores jogadores do mundo é manifestamente pouco.

Não faz sentido ter o melhor jogador da equipa sentado no banco, mas a opinião da maioria dos analistas sugere que os Capitals têm mais hipóteses de ganhar se Ovechkin jogar menos tempo, pois os Capitals ganharam 5 dos 6 jogos em que ele foi menos utilizado.

Os números parecem apoiar esta ideia. O seu Corsi foi -4.8 esta época, apenas o 7º melhor registo entre os avançados dos Capitals. O Corsi é o diferencial de remates enquanto um jogador está em jogo. Esta estatística tem em conta golos, remates à baliza, remates ao lado e remates bloqueados, permitindo avaliar melhor o desempenho de um jogador sem a interferência de factores externos.

Este número pode ser enganador, na medida em que é influenciado pela qualidade dos adversários. Outra estatística, o Corsi QoC (Corsi dos adversários que estão ao mesmo tempo em jogo) revela que Ovechkin teve o trabalho facilitado e que o seu mau Corsi é apenas devido a erros defensivos.

No entanto, se analisarmos a fundo a utilização de Ovechkin por parte de Hunter chegamos a uma conclusão diferente. Hunter transformou Ovechkin num role player, dando-lhe mais tempo de jogo quando os Caps estão a perder. A verdade é que os Capitals apenas passaram 9% de tempo de jogo em desvantagem no marcador.

Hunter faz uma utilização situacional dos seus jogadores, pondo a jogar aqueles que lhe dão mais garantias defensivas quando a equipa está a ganhar ou empatada. Ovi só entra nos planos do treinador quando a equipa precisa de golos.

Outra discussão será a da eficácia desta táctica. Os Caps seguraram apenas 4 das 12 vantagens no marcador, o que pode ser explicado pela reticência do treinador em arriscar para alargar a vantagem. Eu não tenho muita fé nesta estratégia, mas fica provado que a utilização de Ovechkin é situacional e não o produto de uma análise preguiçosa.