A cultura do goon

Ao longo da história da NHL muitas coisas têm mudado, mas a cultura do goon continua quase inalterada. Nos tempos mais tenebrosos da liga, quando as regras eram leves e os jogadores morriam na pista, nasceu a figura mítica do goon.

O goon é um jogador que tem lugar na equipa, não graças há sua habilidade com o stick, mas à sua destreza com os punhos. O principal papel do goon é intimidar o adversário, tentando demovê-lo de qualquer atitude menos correcta para com os seus colegas de equipa. Muitas equipas têm um ou mais jogadores dedicados apenas a este papel. Jogar, jogam muito pouco e não é raro terem mais minutos de penalidade do que de jogo.

O hóquei é um jogo extremamente físico, onde as emoções andam à flor da pele. A luta serve para aliviar alguma tensão e evitar que alguém se aleije a sério, para além de ser uma fonte de motivação para a equipa. O papel protector que o goon assume tornou-o numa figura mítica e, apesar de não serem os jogadores mais habilidosos, são muitas vezes os líderes emocionais das equipas.

Se quiserem ter uma ideia melhor de todo este imaginário, o filme Goon é uma excelente caricatura.

Tudo o que eu disse até agora é a posição de quem acredita na utilidade do goon. Eu não acredito. Não está provado que o goon tenha qualquer efeito sobre a segurança dos seus colegas de equipa. Uma equipa com goons sofre tantas lesões como qualquer outra. Também não se verifica que uma equipa marque mais golos depois de uma luta, antes pelo contrário, por isso o efeito motivador também não é significativo.

Disto isto, eu não me importo com as lutas. Quando 98% dos jogadores da NHL se declara a favor das lutas, quem sou eu para dizer o contrário? Mas se me perguntarem se eu preciso que haja lutas para gostar da NHL, eu respondo não. Gosto das lutas quando têm história, quando se nota que os dois jogadores têm ódio genuíno um pelo o outro, mas a paixão que tenho é pelo jogo e não pelo espectáculo que se monta à sua volta.

O que se passou no sábado no jogo entre os Vancouver Canucks e os Calgary Flames é um exemplo do que pode acontecer quando a cultura do goon é levada ao extremo. Normalmente, são as melhores linhas que começam o jogo. Quando um treinador coloca a linha dos goons (normalmente a 4ª) logo de início é visto como um acto de provocação à outra equipa. Aqui o outro treinador tem duas opções: ou deixa estar os seus melhores jogadores, correndo o risco de serem atacados pelos goons; ou coloca os seus próprios goons e temos aquele lindo espectáculo.

John Tortorella, o treinador dos Canucks, é useiro e vezeiro nestas situações. Já no ano passado aconteceu exactamente o mesmo, ainda ele treinava os New York Rangers, num jogo contra os New Jersey Devils. O treinador dos Flames, Bob Hartley, decidiu vingar-se de tricas antigas e fez-lhe o mesmo. Nenhum dos dois saiu bem visto desta história e foram mesmo penalizados pela liga. Hartley foi multado e Tortorella vai ficar 15 dias suspenso, devido à confusão que causou nos balneários.

Como tudo na vida, a cultura do goon tem os seus pontos positivos e negativos. Se queremos o bom, também vamos ter que levar com o mau. Não sei se isto afasta muitas pessoas do desporto. Espero que não. Mas por outro lado, também acredito que desperta a curiosidade, nem que seja só por um momento. Um momento chega para perceber que o hóquei no gelo é muito mais do que isto.

Publicado originalmente no blog Planeta Desportivo

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