Minnesota Wild com novo estilo assente na posse do disco

Em 2011/12, os Minnesota Wild sofreram a maior desilusão da história da organização. Mesmo tendo chegado ao fim da 1ª parte da época em 1º lugar na Conferência Oeste, a equipa falhou a qualificação para os Playoffs depois de uma 2ª parte desastrosa. A reacção fez-se sentir logo no verão seguinte, com as aquisições de Zach Parise e Ryan Suter.

Na época encurtada de 2013, a equipa estava mais bem composta em termos de jogadores, mas faltava um sistema adequado. Mesmo assim, os Wild classificaram-se para aos Playoffs pela primeira vez em cinco anos, perdendo na 1ª ronda para os enventuais vencedores da Stanley Cup, Chicago Blackhawks.

O treinador dos Wild, Mike Yeo, passou o verão a estudar video da sua equipa e chegou a uma conclusão: o sistema de jogo não tirava o melhor partido dos jogadores que a equipa tem agora.

Quando Yeo chegou aos Wilds, na época de 2011/12, adoptou um sistema mais directo e alicerçado numa grande tendência de despejar o disco. O objectivo era pressionar o adversário rapidamente e forçar turnovers na zona ofensiva. No entanto, a estratégia não resultou e os Wild acabaram a época a permitir 30.5 remates por jogo ao adversário, enquanto só produziam 25.5. Mesmo com uma época acima da média de Backstrom, é difícil ganhar quando se faz menos 5 remates por jogo que o adversário.

Desde então, chegaram à equipa Parise, Pominville, Suter e os jovens Charlie Coyle, Jason Zucker, Mikael Granlund e Nino Niederreiter, jogadores rápidos e mais dinâmicos que precisavam de uma forma diferente de jogar. Mike Yeo apareceu esta época determinado a encontrar o melhor sistema para a sua “nova” equipa.

Os Wild estão agora menos inclinados a despejar o disco e procuram entrar na zona ofensiva em posse, aproveitando a velocidade e a técnica dos seus avançados. A entrada em posse diminui o número de turnovers, facilita a manutenção da posse do disco na zona ofensiva e permite à equipa controlar melhor o jogo, à imagem do sistema instalado por Mike Babcock nos Detroit Red Wings.

Também produz golos destes.

Para conseguir atravessar a zona neutral em posse, a qualidade do primeiro passe é crucial. A capacidade de sair da zona defensiva com segurança e em controlo do disco determina se é possível entrar na zona ofensiva em velocidade, ou se a equipa é obrigada a despejar para se reorganizar.

Para já, e tendo em conta que os Wild apenas realizaram 12 jogos, a produção ofensiva está um pouco melhor do que na época passada, com 27.9 remates por jogo. Os golos ainda não surgiram porque a equipa está com 4.29% de eficácia de remate, o que mostra alguma falta de sorte e está destinado a melhorar.

Mas a grande melhoria é a defesa. Os Wild permitem apenas 18.8 remates por jogo, o melhor registou da liga por uma larga margem. A melhoria não é devida a nenhuma alteração defensiva, mas ao simples facto da equipa basear o seu jogo na posse do disco, o que reduz os turnovers e a probabilidade da defesa ser apanhada descompensada. Enquanto os Wild tiverem o disco, o adversário não pode rematar. Se não rematar, não marca.

Os Wild são a equipa com menos golos sofridos até agora, apesar de isso se dever em parte a uma percentagem de defesa de 96.82%, que, tal como a percentagem de remate, é insustentável. Mesmo quando estas percentagens se regularizarem à medida que os jogos forem passando, os Wild estão destinados ao sucesso, desde que mantenham esta capacidade de posse.

Os Minnesota Wild estão cada vez mais longe do estilo passivo e cínico de Jacques Lemaire, que dominou a primeira década da existência deste clube. Quanto mais afastados estão, mais promissoras são as suas exibições. Não porque um estilo seja superior ao outro, mas porque este está mais adaptado aos jogadores que agora preenchem o plantel dos Wild.

Powerplay em 1-3-1

Nos últimos tempos tenho procurado perceber melhor os mecanismos do hockey: o papel de cada jogador numa determinada situação, as diferenças entre os estilos de jogo das várias equipas, as estratégias que cada treinador utiliza para lidar com as diferentes situações do jogo. Estas coisas não são intuitivas para uma pessoa que nunca jogou o desporto, mas com um olho atento e alguma leitura espero conseguir transmitir aquilo que vou aprendendo.

Duas semanas não chega para avaliar seja o que for (o que não impediu os Flyers de despedirem o treinador ao fim de 3 jogos). 4 jogos têm o valor preditivo de uma moeda ao ar, mas já chegam para detectar algumas tendências na forma de jogar das equipas. A grande tendência deste momento é o powerplay em 1-3-1.

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Fig. 1 – Formação de powerplay em 1-3-1

Como podem ver na Figura 1, esta formação é constituída por um defesa na linha azul (nº 2), dois avançados a meio das bordas (nº 5 e 4), um avançado na slot (nº 3) e outro em frente à baliza (nº 6). Com esta disposição criam-se 4 triângulos com linhas de passe e muitas oportunidades para one-timers.

A primeira equipa a utilizar o 1-3-1 ao nível da NHL foi os Tampa Bay Lightning em 2011, como forma de aproveitar ao máximo os one-timers de Steven Stamkos. No entanto, a propagação que se começa a ver este ano está muito ligada a Adam Oates e ao sucesso do powerplay dos Washington Capitals no ano passado.  Para além de Capitals e Lightning, também Bruins, Jets, Flames, Blue Jackets, Islanders, Oilers, Wild, Devils,  Coyotes, Sharks, Canucks aplicam versões deste sistema.

Nota: só vou analisar a parte do set-up, ou seja quando a equipa têm a posse do disco segura na zona ofensiva. Não vou abordar outras partes tão ou mais importantes do powerplay, como o breakout e a entrada na zona ofensiva.

powerplay em 1-3-1 surgiu como resposta às unidades de penalty kill de pressão alta. O 1-3-1 consegue absorver essa pressão porque, ao contrário de outras formações, é muito fácil virar o jogo de um lado para o outro. A presença de um jogador na slot serve para atrair a atenção dos defesas e assim dar mais tempo aos 3 jogadores da periferia. Muitas vezes, a defesa acaba por ser obrigada a colapsar, dando muito espaço ao defesa (nº 2) para rematar (Fig. 2).

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Fig. 2 – Brouwer atrai a marcação de dois jogadores e obriga o PK dos Blackhawks a colapsar. Green tem todo o espaço do mundo.

Em algumas equipas o jogador nº 3 começa o powerplay ao lado do defesa (nº 2) e só ocupa a sua posição na slot quando a equipa tem a posse controlada do disco na zona ofensiva, de forma a evitar os riscos de jogar só com um defesa. Ele pode também dar uma opção de remate no meio, o que obrigar a defesa a fazer uma escolha: ou sai para pressionar os jogadores da periferia ou fica para marcar o da slot.

Os jogadores a meio das bordas (nº5 e 4) são dispostos no lado contrário ao seu remate, ou seja, o avançado que remata de direita fica no lado esquerdo e o que remate de esquerda fica no lado direito. Isto potencia tanto o remate directo como o passe para o defesa (nº 2) para ser ele a rematar.

O nº 2 é o pivot da formação e tem a responsabilidade de mudar o jogo de flanco, assistir para os one-timers do nº 5 e do nº 4 e também procurar vias abertas para o remate. É preferido o slapshot, mas o remate de pulso também é eficaz, procurando o desvio dos jogadores à frente da baliza (nº 3 e 6). Mike Green é o jogador perfeito para esta posição por ter excelente passe e remate. No video podem ver uma longa troca de passes entre Green, Ovechkin e Backstrom, a culminar no remate do defesa.


O jogador nº 6 é aquele que pode elevar esta formação a outro nível. Se este jogador se fixar à frente da baliza, apenas a atrapalhar a visão do guarda-redes, o powerplay pode tornar-se unidireccional, dependendo apenas dos remates da periferia. No entanto, se o nº 6 for capaz de dar uma opção de passe atrás da baliza a formação ganha versatilidade e fica muito difícil de defender.

Este jogador tem que ler se os jogadores da periferia (nº 2, 5 e 4) vão rematar ou se precisam de outra opção de passe. O seu posicionamento permite que se mude de flanco por trás da baliza, tal como faz o jogador nº 2 na linha azul. No vídeo podemos ver duas situações em que os Capitals conseguem mudar o flanco com facilidade. Reparem também, durante o primeiro clip,  na constante movimentação do Grabovski, saltando para a frente da baliza sempre que há ameaça de um remate.


Na eventualidade de receber o disco atrás da linha de golo, o jogador nº 6 tem várias opções (Fig. 3). Ele pode devolver ao avançado que está do seu lado, pode fazer um passe para o jogador nº 3 na slot, pode assistir o avançado que aparece ao 2º poste ou atacar directamente a baliza. Torna-se muito díficil para uma equipa com menos um jogador fechar todas estas linhas de passe, pelo que uma das opções estará sempre disponível.

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Fig. 3 – Opções de passe do nº 6 atrás da linha de golo.

Mikhail Grabovski é um jogador particularmente interessante para esta posição. Tem uma boa movimentação, bom passe e com qualidade para finalizar, mesmo em espaços apertados.

Em conclusão, o 1-3-1 é uma formação com grande mobilidade e versatilidade que tem capacidade para ser muito mais produtiva do que outras formações utilizadas até aqui. Requer jogadores com elevada capacidade técnica e por isso não é para toda a gente, mas com os jogadores certo pode ser explosivo. Mais uma vez, o set-up é apenas a última fase do powerplay. Tudo o que vem antes pode fazer a diferença.

Uma situação particularmente interessante para seguir este ano é o powerplay dos Bruins. Depois de terem tido uma época de 2013 terrível (ao nível do PP, claro), os Bruins apresentam-se este ano em 1-3-1, com Zdeno Chara a jogar à frente da baliza. Tendo em conta a mobilidade que é pedida a esse jogador, tenho dúvidas que Chara seja a escolha ideal. Será que ele não seria melhor utilizado na linha azul, fazendo uso do seu poderoso slapshot? Qual é o melhor atributo de Chara? O tamanho ou o remate?