Fantasmas do passado

No processo entregue no dia 10 de Maio, a família de Derek Boogaard culpa a NHL pela morte do jogador de 28 anos.

Derek Boogaard foi encontrado morto pelo seu irmão Aaron no apartamento que partilhavam no Minnesota, por volta das 18 horas do dia 13 Maio de 2011. O relatório da autópsia indicou uma overdose acidental de álcool e analgésicos.

Desde criança que o tamanho de Derek influenciou o julgamento que os outros faziam dele. Com 193 cm e 95 Kg aos 15 anos de idade, Derek não podia ter uma personalidade mais diferente do seu aspecto exterior. Não tinha nada de intimidador e era até muito tímido.

Os miúdos podem ser cruéis e o tamanho desproporcional de Boogaard, sem a maldade necessária para lhe dar uso, tornou-o num alvo fácil. Derek era o gigante que os outros enfrentavam para impressionar as miúdas. O constante confronto começou a moldar a sua personalidade, levando a dificuldades de aprendizagem e uma aparente incapacidade de medir as consequências dos seus actos.

A família decidiu então procurar uma actividade que ocupasse a sua cabeça lhe ensinasse alguns valores positivos. O hockey foi a solução.

Mais uma vez estereotipado pelo seu tamanho, Derek foi obrigado a lutar. Em todos os níveis da pirâmide do hockey a figura do goon está presente, principalmente na Western Hockey League, onde Boogaard alinhou pelos Regina Caps, Prince George Cougars e Medicine Hat Tigers.

No primeiro treino com os Caps, Boogaard partiu o nariz a um colega de equipa, deixando bem claro aquilo que era. Já na altura, ele sabia que lutar era a única porta de entrada para NHL.

Na NHL ainda prevalece a cultura do goon. Elevado a herói, ele defende aqueles que na realidade sabem jogar, mesmo que nunca jogue ao lado deles. Não estou a falar dos jogadores que lutam. Estou a falar dos lutadores que tentam jogar. Daqueles que num jogo normal têm mais minutos de penalidade do que de jogo.

Nenhum outro momento contribuiu tanto para o mito do Boogeyman como a luta contra Todd Fedoruk a 27 de Outubro de 2006. Fedoruk quis vingar uma placagem de Boogaard sobre um colega de equipa. Segundos depois o jogador dos Anaheim Ducks caía no gelo desamparado. O lado direito da cara de Fedoruk teve que ser reconstruído cirurgicamente, com placas de metal onde antes estavam ossos.

Muitas vezes o goon é mais idolatrado do que as verdadeiras estrelas, pelo menos mais temido. Em 2007, Boogaard foi escolhido pelos seus pares como o 2º jogador mais intimidante da NHL, atrás de Georges Laraque. Donald Brashear completou o top-3. Zdeno Chara é o primeiro não-goon da lista, em 4º com apenas 4% dos votos.

Boogaard não lutava por gosto. O que o motivava era o que trazia a vitória em cada luta. A glória, o respeito dos colegas, o temor dos adversários e a garantia de que no fim do mês recebia um salário digno de um jogador da NHL, quando no fundo ele próprio sabe que não o era.

Nas palavras de Georges Laraque, é um trabalho que tem que ser feito. “Nunca lutei zangado. É um trabalho. Nunca encarei como um ataque pessoal. Muitas vezes, cumprimentamos o nosso adversário educadamente. O trabalho já é difícil, não é preciso insultar ninguém. Nós sabemos o que temos que fazer.”

A glória traz um preço, e o preço que Boogaard teve que pagar foi demasiado alto. Ossos partidos, concussões a perder de conta, distúrbios de personalidade e dores crónicas, e o resultante abuso de analgésicos, que acabou por levar à sua morte.

Boogaard foi cremado, mas uma parte do seu corpo foi preservada, o cérebro. Depois de ter sido recolhido pelo médico-legal, foi transportado para o centro de investigação médica de Bedford, Massachusetts. Cinco meses depois, o resultado foi revelado. Boogaard sofria de encefalopatia traumática crónica, mais conhecida por CTE.

A CTE é uma neuropatologia parecida com a doença de Alzheimer, associada a perda de memória, distúrbios comportamentais, depressão e demência. Para uma explicação mais pormenorizada da doença vejam este vídeo.

Aaron Boogaard confessou ao New York Times que nos dias anteriores à sua morte, o irmão se queixava que não conseguia dormir porque a cama não parava de rodar. Os médicos que fizeram o diagnóstico póstumo projectaram que se Boogaard não tivesse morrido aos 28 anos iria sofrer de demência severa a partir da meia-idade.

A CTE é causada por traumatismos cerebrais sucessivos, particularmente concussões. É uma doença rara e quase exclusiva dos desportos de contacto. Dos 51 casos confirmados de CTE até 2010, 46 (90%) eram atletas.

Boogaard começou a tomar analgésicos para aliviar as dores de cabeça. Quando jogava nos New York Rangers, chegava a passar dias inteiros fechado no seu apartamento em Manhattan, com as persianas corridas e o mínimo de luz possível.

A necessidade tornou-se vício, e Boogaard começou a abusar dos analgésicos. O staff médico de uma equipa padrão da NHL é composto por aproximadamente 10 médicos independentes e Boogaard percebeu que não havia ninguém que controlasse as prescrições. Quando ainda jogava pelos Minnesota Wild, ele conseguiu arranjar 11 prescrições de 8 médicos diferentes, num espaço de 3 meses. São quase 300 comprimidos de hidrocodona.

A hidrocodona, mais conhecida como di-hidrocodeína, é um analgésico opiáceo duas vezes mais potente do que a morfina. É utilizado em associação com o paracetamol (Vicodin®) no alívio de dores moderadas a fortes. Em doses elevadas tem acção anestésica e pode provocar paragem respiratória. É potenciada pela ingestão de álcool e causa dependência, física e psicológica.

A família de Boogaard encontra aqui material suficiente para acusar os médicos, mas apontam a NHL como a principal culpada. A acusação alega que a liga é responsável pelo trauma físico e pelas várias lesões cerebrais sofridas por Boogaard durante as 6 épocas passadas na NHL, o que acabou por conduzir ao abuso de analgésicos nos últimos anos da sua vida.

Boogaard é o primeiro caso na NHL a chegar a tribunal. Na NFL são já muitos os exemplos de indemnizações chorudas que a liga teve que pagar em processos semelhantes. No entanto, a família de Boogaard pediu apenas o montante mínimo para cada uma das 8 acusações.

A NHL tem feito um grande esforço para eliminar as placagens perigosas, com suspensões e multas pesadas. O objectivo tem sido atingido, apesar de continuarem a aparecer muitas concussões devido à simples brutalidade do jogo. Mas o assunto não está resolvido.

Rick Rypien e Wade Belak morreram em situações muito semelhantes às de Boogaard, com sintomas muito parecidos e eram também eles habituais lutadores. O Sr. Hockey, Gordie Howe, teve saúde suficiente para chegar aos 85 anos de idade, mas sofre de demência, provavelmente causada pelas lesões cerebrais sofridas durante os seus 32 anos de carreira.

Mais de 50% dos casos de CTE foram diagnosticados em atletas profissionais de boxe. Existe uma correlação comprovada entre o aparecimento de lesões cerebrais e levar murros na cabeça, por mais óbvio que isso pareça. Talvez seja tempo de pesar bem o efeito das lutas na saúde dos atletas a longo prazo.

Não tenho nada contra as lutas, mas também não vejo hockey só por que a qualquer altura pode haver molho. As combinadas aborrecem-me. Gosto das espontâneas, criadas pela aversão legítima entre duas pessoas. São muito mais entretidas e têm uma história por trás.

Normalmente não alinho com os críticos. Sempre pensei que as lutas fazem parte da cultura do jogo e com o passar do tempo iriam reduzir de número, há medida que os responsáveis das equipas perceberem que não se podem dar ao luxo de terem pessoas no plantel que não sabem jogar, até lentamente se tornarem irrelevantes.

No entanto, se aparecerem mais casos de lutadores com lesões cerebrais os críticos ganham um argumento difícil de contestar. O precedente estabelecido por Boogaard pode motivar outros jogadores e respectivas famílias a fazerem o mesmo. Ainda se vai falar muito deste processo e o seu eventual desfecho vai obrigar a NHL a lidar com os seus fantasmas.