Grabovski, Bozak e o contexto

Prometo que é a última vez que falo nisto. Como disse há uns dias, a comparação entre Grabovski e Bozak não é nada favorável ao último. Qualquer pessoa que veja os jogos dos Leafs com mais atenção não precisa de mais nada para perceber a diferença entre estes dois. Contudo, os números validam aquilo que os olhos vêem e são argumentos mais fiáveis do que a nossa memória.

Mikhail Grabovski chegou aos Maple Leafs depois de 2 anos problemáticos nos Montreal Canadiens. Na altura, os Leafs conseguiram ver em Grabovski um centro com qualidade nos dois momentos de jogo. Essa capacidade de atacar e defender ao mesmo nível mereceu cada vez mais a confiança de Ron Wilson.

Quando Randy Carlyle chegou, tudo mudou. Grabovski passou a jogar cada vez menos minutos, acabando mesmo por ser despromovido para a 3ª linha. Pelo contrário, Tyler Bozak ganhou mais protagonismo com Carlyle, reclamando de vez o estatuto de centro de 1ª linha, ao lado de Phil Kessel.

Um dos argumentos para a permanência de Bozak na 1ª linha sempre foi a química que existe entre ele e Kessel. Parece que eles são muito amigos fora do gelo, mas lá dentro será que Kessel joga melhor quando está ao lado de Bozak? Vamos ver.

kessel
Tabela 1: TOI (time on ice) – tempo de jogo; GF%= golos marcados/ (golos marcados+golos sofridos); CF% – igual ao GF% mas para tentativas de remate

Esta tabela compara o desempenho de Kessel quando joga com Bozak e quando joga com Grabovski. Existe uma grande vantagem para Grabovski, quer na percentagem de golos, quer na percentagem de tentativas de remate. Ou seja, os Leafs marcam mais golos e fazem mais remates do que o adversário quando Grabovski e Kessel estão ao mesmo tempo em jogo.

Incomoda-me muito que Grabovski nunca tenha tido oportunidade para jogar com Kessel. Kessel é um jogador muito particular. Ele tem uma capacidade inata para marcar golos, mas perde-se um bocado na zona defensiva, apesar de ter melhorado muito nos últimos dois anos. Kessel precisa de um centro que assuma as responsabilidades defensivas e lhe dê liberdade para arriscar. Bozak ainda consegue ser pior a defender. Grabovski podia ter dado essa segurança a Kessel, mas em 5 anos apenas jogou a seu lado durante 345 minutos, equivalente a cerca de 14 jogos.

Se compararmos directamente a performance de Grabovski e Bozak, mais uma vez a vantagem é do Bielorrusso.

grabovski
Tabela 2: TOI/J – tempo de gelo por jogo; G – golos; A – assistências; Pts – pontos; Pts/60 – pontos por 60 minutos; GF% – ver tabela 1; CF% – ver tabela 1
bozak
Tabela 3

A produção de Grabovski foi sempre superior à de Bozak, durante os 5 anos que esteve em Toronto. Marcou mais golos, mais pontos e equilibrou isso com um jogo defensivo eficaz, e tudo isto jogando com jogadores de muito menor qualidade.

Os críticos de Grabovski apontam a fraca performance na época passada, e acusam o jogador de não ter marcado golos suficientes numa altura em que a equipa jogava bem. Já aqui disse que a equipa não jogava assim tão bem. Era dominada quase todos os jogos e dependia de uma insustentável eficácia nos remates e das exibições de James Reimer.

Apesar disso, é verdade que os números de Grabovski caíram no ano passadp, mas foram só 48 jogos, meia época. O próprio Bolland teve um ano péssimo a nível individual, e não foi por isso que os Leafs não o foram buscar. Adquirir um bom jogador depois de meia época má é esperteza. Dispensar um bom jogador depois de meia época má é estupidez. Fazer as duas coisas num espaço de uma semana é loucura.

Mas a queda dos números de Grabovski pode ser explicada. Um dos perigos de usar dados para testar hipóteses é não ter em atenção o contexto. Os números que eu apresentei nas tabelas em cima não valem nada se não conhecermos o contexto em que eles aparecem. O contexto dá-nos o significado ao números, permite-nos interpretá-los. A próxima tabela tenta mostrar o uso que Randy Carlyle deu a Grabovski e a Bozak no ano passado.

uso
Tabela 4: PP TOI – tempo de jogo no powerplay; OFZ% (ofensive zone starts) – início de turnos na zona ofensiva; QoC – quality of competion

O uso de um jogador pode ser avaliado por três vertentes: tempo de jogo (TOI), % de turnos iniciados na zona ofensiva (OFZ%) e qualidade de competição (QoC). O tempo de jogo é óbvio e a OFZ% é fácil de entender. Quanto mais turnos um jogador começar na zona ofensiva, mais probabilidade tem de marcar golos ou fazer assistências. A QoC do jogador x é basicamente uma média da CF% (percentagem de remates tentados pela equipa enquanto um jogador está no gelo) de todos os adversários que o jogador x enfrentou.

Na tabela 2 e 3 pudemos ver que Grabovski joga quase menos 5 minutos por jogo, e mais de um minuto dessa diferença é feita no powerplay. Em 2010-11, o melhor ano da carreira de Grabovski, ele jogou 3 minutos e 8 segundos por jogo no powerplay. Passados 3 anos estava reduzido a 1 minuto e 42 segundos. O tempo de powerplay é essencial para um jogador poder acumular pontos.

Grabovski também teve uma OFZ% muito baixa. Bozak acabou por ter um número abaixo dos 50%, mas isso parece ser comum a toda a equipa dos Leafs, o que é mais um indício que a equipa era dominada pelos adversários, acabando os turnos sempre enfiada na sua zona defensiva. O valor mais alto é de 50.3% pertencente a Colton Orr.

Para terem uma ideia do impacto que tem começar o turno na zona defensiva, aqui está uma tabela com os jogadores que começaram menos turnos na zona ofensiva do que Grabovski (e prometo que é a última).

ofz
Tabela 5

Não é a fina nata da NHL, não senhor. Nenhum destes jogadores conseguiu quebrar a barreira dos 20 pontos, sem ser Nikolai Kulemin, que passou grande parte do seu tempo ao lado de Grabovski. Deste grupo, apenas Kulemin e Boyd Gordon enfrentaram melhor qualidade de competição (QoC). Nenhum destes jogadores, excepto Kulemin e Sean Couturier, é metade do jogador que é Grabovski.

O que eu quero dizer com isto é que o Grabovski não foi usado da maneira correta, tal como Kulemin. É um desperdício utilizar jogadores como eles para fazer este tipo de minutos. Se virem os outros nomes na lista são tudo jogadores medianos e especializados num papel defensivo. Grabovski tem muito mais para oferecer, mas precisa de ser colocado numa posição que lhe permita ter sucesso. Estou a pensar escrever um artigo sobre Alain Vigneault e o zone matching e aí vou desenvolver melhor esta ideia.

Concluindo, os Leafs dispensaram um jogador por ele ter tido uma época menos produtiva, mas esqueceram-se de ter em conta a maneira como ele foi utilizado. Grabovski nunca ia conseguir marcar muitos pontos com todas estas condicionantes: menos tempo de jogo, menos tempo de powerplay, menos OFZ% e maior qualidade de competição.

Dave Nonis e a sua equipa não avaliaram o contexto, e números sem contexto são só isso, números.

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