Papel madrasto!

Toda a gente sabe que no hóquei o que interessa são os golos porque são eles que dão vitorias, e é a ganhar que se chega à tão cobiçada Stanley Cup. No entanto uma equipa é muito mais que fazer golos. Muitas vezes é mais importante impedi-los. Cada jogador tem um papel. Em princípio se esse papel for cumprido, a equipa funciona e ganham-se jogos. Claro que nada é assim tão linear. Existe sempre o factor sorte e obviamente os jogadores não valem todos o mesmo. Mesmo assim acredito que uma equipa mais fraca, se tiver jogadores que entendem o seu papel e que o desempenham com competência, pode ser superior a uma equipa de “estrelas”.

No sentido de avaliar as equipas e de as melhorar, o hóquei e os seus adeptos têm uma obsessão que não se vê em muitos desportos, as estatísticas. E não estamos a falar de golos marcados e golos sofridos. Estamos a falar de estatísticas avançadas que envolvem fórmulas complicadas e que analisam ao pormenor todos os aspectos do jogo, dos jogadores e das equipas, de tal forma que, em excesso, podem até ridicularizar a análise do jogo. Os números dos jogadores tirados do contexto, sem ter em conta uma série de factores, podem ser falaciosos, iludindo em erro sobre o seu verdadeiro valor. No entanto se uma estatística for bem utilizada pode ser muito útil para avaliar, de facto, a qualidade de um jogador e, em última análise, a sua equipa.

Mas afinal, o que têm a ver as estatísticas com os papéis dos jogadores? É isso mesmo que eu quero explicar. Depois de analisar vários artigos cheguei à conclusão que existe um conjunto de jogadores que têm um papel muito especial nalgumas equipas. São defensive foward, especialistas defensivos, ou seja avançados que têm um papel mais defensivo. Este tipo de jogador não marca necessariamente muitos golos, mas também não lhe cabe a si fazê-lo. O seu papel é mais prevenir os golos. Estes jogadores, normalmente na 3ª linha, absorvem os minutos mais difíceis, ou seja, jogam contra a competição mais forte e fazem um grande número de turnos defensivos. Desta forma, dão margem às estrelas da equipa para terem mais liberdade e marcarem golos. Claro que há algumas equipas em que são as estrelas que absorvem os minutos mais difíceis, mas não são esses casos que interessam nesta análise.

Então até agora temos um conjunto de jogadores com um papel muito definido nas equipas, que consiste em fazer muitos minutos difíceis e com a maioria dos turnos defensivos. Penso também que é unânime a importância destes jogadores, sobretudo nas equipas mais fracas, mas a verdade, e é aqui que se torna curioso, é que as estatísticas nem sempre são justas com estes jogadores. Há uma em particular que eu quero explorar. O Corsi. Este é um diferencial de remates, ou seja é o conjunto dos remates feitos por uma equipa (remates à baliza, remates falhados e remates bloqueados) menos os remates sofridos por essa equipa. Quando aplicamos a um único jogador, o corsi refere-se apenas aos remates feitos e sofridos pela equipa enquanto esse jogador esteve em campo. Esta estatística dá-nos a ideia da posse do disco. Logicamente, uma equipa que tem um Corsi maior, tem mais remates, logo terá maior posse de disco. Quando avaliamos um jogador apenas pelo seu Corsi, sem ter em conta mais nenhum aspecto pudemos chegar a conclusões erradas. Um mau Corsi não quer dizer que estamos perante um mau jogador, assim como um bom corsi não é, só por si, motivo para sobrevalorizar um jogador. O contexto deve ser considerado. Existem de facto muitos jogadores que têm um mau corsi, mas que são muito importantes para a equipa. E não é difícil de entender. Um jogador que esteja em campo a defrontar os jogadores mais fortes da outra equipa e que ainda por cima faça muitos turnos defensivos, terá mais dificuldade para manter a posse do disco e para impedir os remates. Este tipo de jogadores encaixa no tal papel que traçei anteriormente. Estes jogadores acabam por ter piores corsis, não por serem maus jogadores mas porque jogam em situações mais difíceis.

Perante isto temos de ter em conta dois factores fundamentais quando avaliamos um jogador pelo seu Corsi: quality of competition e offensive zone starts. A qualidade da competição expressa o valores dos jogadores da equipa adversária que estão no gelo ao mesmo tempo que o jogador a ser avaliado. É um factor muito importante porque se um jogador joga constantemente contra os melhores tem mais dificuldades. Quanto às zones starts, um jogador que tenha muitos turnos defensivos nunca pode ter um corsi tão alto como um jogador que tem a maioria dos turnos ofensivos. Ora o que acontece com os defensive foward é precisamente isto. Normalmente jogam contra adversários fortes e têm a maioria dos turnos defensivos. Isto faz com que seja muito difícil terem um Corsi positivo, mas isso não faz deles maus jogadores, pelo contrário. Depois há os casos, em que estes especialista da defesa conseguem atingir Corsi positivo, ou pela sua qualidade e grande competência ou porque há outros jogadores da sua equipa que partilham os minutos difíceis.

Vejamos 5 casos que escolhi para ilustrar bem este papel de defensive foward, e que também dão uma ideia de como o corsi pode ser enganoso só por si.

Manny Malhorta, Vancouver Canucks

Como é visível no gráfico, Malhorta tem um papel altamente especializado e puramente defensivo. No eixo dos xx temos a percentagem de turnos ofensivos que um jogador faz. Quanto menor a percentagem, mais defensivo é o seu papel. Ora Malhorta tem uma percentagem à volta dos 12%, o que quer dizer que ele faz quase todos os turnos na zona defensiva, deixando os turnos ofensivos para a dupla letal dos irmãos Sedins. Desta forma optimizam-se as qualidades dos jogadores. O Malhorta não faz turnos ofensivos porque os Canucks não precisam de mais um jogador a marcar golos, mas sim de um avançado especialista na defesa. No eixo dos yy, tem a qualidade da competição. Quanto maior o número, mais fortes são os adversários que o jogador defrontam quando estão no gelo. Realmente Malhorta não tem um valor muito elevado, mas isso é porque há outros jogadores que também absorvem os minutos difíceis, o que faz com que ele não jogue contra os adversários mais fortes. Finalmente analisemos o Corsi. Bolas azuis, corsi positivo; bolas brancas, corsi negativo. Quanto maior a bola, maior o valor do corsi. Neste caso, o corsi do Malhorta é mau. A bola é grande mas é branca. Mas, com os turnos defensivos que ele faz como não haveria de ser!? É quase impossível um jogador deste tipo estar no gelo e a equipa ter grande posse do disco ou muitos remates. Mas também não é esse o seu papel. Tudo isto para explicar que Manny Malhorta não é um mau jogador só porque tem um mau corsi. Temos que ver o contexto e o seu papel em campo. Temos de ajustar o Corsi às zones starts e ao quality of competition. Se o fizermos, conseguimos ver a importância deste tipo de jogador e como a organização da equipa é muito mais eficaz se cada um cumprir a sua função. E isso, Malhorta faz na perfeição.

Dave Bolland, Chicago Blackhawks

Bolland sofre exactamente do mesmo “mal” que Manny Malhorta. Tem a maioria dos turnos defensivos e neste caso, Bolland joga contra os adversários mais fortes, absorvendo por completo os minutos mais difíceis, deixando livres os melhores jogadores, como Jonathan  Towes.

Brian Boyle, New York Rangers

O caso de Boyle é ligeiramente diferente. Claramente é um especialista defensivo. Tem muito mais turnos defensivos , mas não joga contra os mais fortes. Isto acontece porque os minutos difíceis são distribuídos equitativamente pelas três primeira linhas, aliviando alguma da responsabilidade de Boyle. Este facto pode explicar o seu corsi positivo. Mesmo assim, Boyle deparou-se com muitos turnos defensivos e isso contribuiu para o baixo número de golos sofridos pelos Rangers.

Jordam Staal, Pittsburgh Penguins

 Nos Penguins, o papel de defensive foward está entregue a Jordan Staal. É impressionante como ele consegue ter um grande número de turnos defensivos (não tanto como Malhorta, mas são equipas diferentes), contra os adversários mais fortes, porque tem um quality of competition assutador, e mesmo assim tem um corsi positivo. É, de facto, um grande jogador. Com este papel de Staal, Malkin e Crosby têm liberdade para dominar os turnos ofensivos e concretizar os golos.

Jarret Stoll, LA Kings

Este gráfico é diferente e foi por isso que o escolhi. Nos Kings, o especialista defensivo é Jarret Stoll, mesmo com um quality of competition muito baixo e zones starts mais ofensivos do que os casos anteriores. O que acontece é que os Kings têm uma organização diferente. Neste caso quem tem a responsabilidade de absorver os minutos mais difíceis são os melhores jogadores, como Gagne, Kopitar ou Carter e por isso o papel de Stoll é algo diferente de Malhorta, Bolland, Boyle ou Staal.

Depois desta análise exaustiva, resta-me levantar uma questão. O que define melhor um defensive foward, quality of competition ou zones starts?! A verdade é que se temos um jogador que defronta os adversários mais fortes mas tem poucos turnos defensivos eu só posso afirmar que o treinador acha que ele é um especialista defensivo e isso pode ser porque não tem ninguém melhor para o papel. Mas se um jogador tem a maioria dos turnos defensivos, mesmo que não jogue contra os mais fortes estamos, de certeza,  perante um avançado especializado na defesa.

Espero que este artigo abra os olhos sobre o papel das estatísticas. Ter uma estatística má, só por si, não quer dizer nada. Há que analisar o jogador num todo, tendo em conta o seu papel, os jogadores com quem joga e contra quem joga. Se assim fôr o Corsi e qualquer outra estatística pode ser fundamental para compreender a magia por detrás de um disco, um jogador, uma taça!